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quarta-feira, 19 de maio de 2010

Produto que não interessa à SEMURB!

Por Janilson Sales de Carvalho

Todos os domingos vou a feira da Cidade da Esperança comprar livros. Há 25 anos o casal, Neto e Rosa, trabalha na feira vendendo livros e revistas. Entre verduras, frutas e outros produtos, os clientes encontram Machado de Assis, Jorge Amado, Paulo Coelho, Chico Xavier, Proust , Cascudo, Cecília Meireles e incontáveis nomes da literatura. Enquanto realizo minha operação de busca entre os livros amontoados converso com o casal um papo sempre agradável.

Nesses momentos vejo aproximarem-se da banca os mais variados tipos de clientes, desde crianças em busca de gibis, a garotas em busca de romances e senhores em busca de livros sobre guerras e ficção científica. Olham para as obras com o mesmo olhar atento que usam para escolher a melhor fruta. Manuseiam com carinho o livro e enchem de perguntas o vendedor que em fala corrida valoriza a obra e a leitura. E assim os livros vão, aos poucos, encontrando espaço nas bolsas com batatas e laranjas, tomando novos rumos.

Neste último domingo não rolou um bom papo, mas uma preocupação. A SEMURB está cadastrando os feirantes que irão ocupar o novo espaço da feira que está sendo construído no bairro e não incluiu meus queridos sebistas. Perguntei a Rosa o motivo e ela afirmou que ouviu de um servidor da secretaria que este produto não interessa. Fiquei chocado com a resposta. São vinte e cinco anos prestando o melhor dos serviços em uma feira livre. Quantos milhares de livros chegaram às mãos de uma população carente graças a iniciativa deste casal.

Vivemos no Brasil uma tragédia no campo da leitura. Os índices são ridículos quando se analisa a população brasileira. Acredito que a maioria dos transeuntes da feira jamais entrou em uma livraria ou biblioteca.Por sinal, biblioteca pública nos bairros é tema proibido nas administrações de Natal.Gasta-se milhares de reais com uma banda de forró e nenhum centavo com obras literárias. Nem concursos literários há mais.

Fiquei preocupado com meus amigos, meus domingos e meus livros de feira. O que fazer para que eles permaneçam na feira levando cultura, sabedoria e prazer. E estas outras pessoas que só tem este tempo e esta banca para adquirir, manusear, tocar e escolher um livro. Nem sonho mais com belas bibliotecas em bairros. Sonho apenas com um pequeno espaço de uma feira , onde um casal amigo, entregue a uma criança a revista do Pato Donald e ao pai uma edição de Dom Casmurro e que ambos sigam, entre as bancas de verduras, com um brilho nos olhos.

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Parabéns pelo texto Janilson.

A falta de sensibilidade por parte deste servidor da SEMURB é tanta, que beira a ignorância. Mas é assim, o que é bom para o povo geralmente não é bom para o governo, prefeitura ou qualquer que seja o tipo de administração pública.
Fica aqui o protesto.

2 comentários:

Elton disse...

Realmente... Ótimo texto.

Fernanda disse...

Existe nas agências dos Correios um tipo de "Ouvidoria via carta" para você expressar seus interesses, reclamações, sugestões ou elogios (esse último é difícil) para a Prefeitura.

O mais difícil é ter a certeza de que não irão reciclar o papel antes mesmo de abrir e ler.

Esse caso é uma pena mesmo. Me lembro da minha infância, lendo gibis do Tio Patinhas e Turma da Mônica e trocando e comprando por outros na feira de domingo no bairro das Quintas. Depois dos 12 anos a barraca sumiu e fiquei tão triste, não era sempre que minha mesada dava pra comprar uma revistinha nova...