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sexta-feira, 8 de maio de 2009

ENTREVISTA COM O INCLASSIFICÁVEL NEY MATOGROSSO.


Ney Matogrosso vem à Natal apresentar a sua mais recente performance o "Inclassificáveis", um espetáculo digno de um teatro ou local apropriado para um show de verdade. Dessa vez será no Boulevard, que  Infelizmente não tem a mínima acústica nem para o barulho de um 'show' de pagode. O Boulevard [local do show] foi construído para festas de debutantes e formaturas, mas pela carência de casa especializadas em shows está servindo para tal. Para Ney o local do show não importa muito, mas para o público o preço cobrado pelo ingresso é salgado e exigiria mais conforto, não mesas e cadeiras de plástico.
Mais uma vez o Jornalista Sérgio Vilar do Diário de Natal, me cedeu uma de suas entrevistas, vamos à ela:

Sérvio Vilar - Outros grandes intérpretes e compositores da MPB contemporâneos seus despontaram na década de 60. Você gostaria de ter vivido mais intensamente esse período como artista e ter participado daqueles protestos contra a ditadura? No fundo, há alguma frustração em ter aparecido para o cenário nacional com a explosão do Secos & Molhados somente na década de 70?
Ney Matogrosso - Tudo vem na hora certa para cada pessoa. O que não vivi nos anos 60 eu vivi nos 70. Fiz tudo o que eu queria.

O Secos & Molhados seria transgressor hoje?
Não, embora eu ache que as pessoas ainda me veem como transgressor. Apenas continuo coerente com o que eu sempre fui.

E quem é esse Ney Matogrosso dos últimos 40 anos?
Eu sou uma pessoa... Primeiro eu penso. Segundo, eu concluo sobre o mundo ao meu redor. O que me desagrada eu falo; me manifesto a respeito do mundo que me cerca. Isso sem fazer média ou tentar agradar ninguém. É tudo com liberdade de expressão. Não é muito comum essa postura, principalmente entre os artistas. As pessoas públicas fazem muita média.

Conte como foi a experiência como hippie. O que acrescentou à sua personalidade como artista e pessoa?
Esse princípio de liberdade que tenho veio dessa época. Abri mão de viver a vida da sociedade organizada. Não foi condição imposta pela vida. Minha família era de classe média; comia três refeições ao dia, tinha sabão. Mas nunca me fiz de coitadinho. Eu optei por isso. Abri mão dessa vidinha de classe média para ter essa independência que eu tanto necessitava. Para isso, temporariamente abri mão de comer todos os dias, mas sem sofrer por isso. E diria que hoje eu sou o resultado disso ainda; uma espécie de continuação.

Foi uma opção contra a ditadura ou em busca da liberdade fora do seio social da classe média?
Totalmente contra a repressão. 

Uma forma de protesto, então?
Isso. Eu sabia que eles odiavam maconheiro. Então fumei muito porque a ditadura detestava. Deixava meu cabelo enorme porque sabia que eles odiavam. E não era só eu; eram muitos. 

A apresentação performática nos palcos já no início da sua carreira foi uma provocação ou transgressão ao turbulento período da ditadura que acabou funcionando ou surgiu espontaneamente?
Era provocação pura. Eu sabia que um homem com corpo nu exposto provocava. E dentro daquele contexto... Eu vejo fotos daquela época e até hoje não entendo como não deram fim em mim. Eles pegavam presos políticos e os levavam em aviões para largar em cima na restinga da Marambaia, no meio do Oceano Atlântico.

Qual estratégia para escapar do cerco?
Sempre ignorei a presença deles. Fingia que não existiam. Diferente de outros artistas, nunca tive envolvimento político-partidário. Política nunca me interessou e cada vez me interessa menos porque é muito sórdida.

O pioneirismo no Brasil ao que chamam de androginia recebeu influência de algum estereótipo estrangeiro, como David Bowie, por exemplo?
Sabia do David Bowie na época, mas era outro caso. A inspiração da maquiagem veio do Teatro Cabúqui (teatro japonês). O figurino fui desenvolvendo. Iniciei com roupas, calças, mas sentia muito calor e passei a usar trapos pendurados.

O estilo exige bastante fôlego e desenvoltura corporal para um senhor de 68 anos. Luís Caldas, quando fez show aqui, quis abandonar o estigma do axé para apresentar um show mais instrumental e foi puxado pelo público a cantar os velhos sucessos. Você pretende abandonar o estilo marcante da sua carreira?
Não faço ideia de quando vou parar. Enquanto tiver energia vou usar meu estilo. Ainda está tudo no canto. Sou uma pessoa muito saudável. Não sou de excessos; gosto de dormir; como pouco. Às vezes saio da mesa com sensação de que poderia repetir o prato. Também faço ginástica diariamente; pilates.

Você é intérprete de alguns dos maiores nomes da MPB, como Ângela Maria, Chico Buarque. Como se dá a escolha para iniciar a gravação de novos trabalhos? Cartola foi o trabalho mais difícil pela inflexão de voz do sambista?
Mais difícil em razão do repertório tratar um assunto só do começo ao fim: o rompimento da paixão. Então é preciso cuidado para não ficar uma coisa chata. Mas Cartola é tão maravilhoso que ultrapassa essas barreiras. As pessoas cantam os refrões das músicas dele. E quanto às escolhas, vou muito pela intuição, pelo meu gosto pessoal.

Quando gravou com Pedro Luís e a Parede, em 2004, chegou a conhecer o trabalho de Roberta Sá, namorada de Pedro Luís? O que acha da música dela?
Conheci a Roberta antes disso. Estimulei que ele fosse e fizesse acontecer. Quando fazia pilates colocavam o Cd dela pra tocar. Eu achava aquilo lindo. Gosto da voz dela. Agora, ela está no princípio. Não dá pra prever o sucesso. A música é muito instável. Artistas vem e desaparecem muito rápido. Mas ela tem talento.

Como poucos astros brasileiros e contra a maré de culto às celebridades, você parece fugir dos holofotes da mídia. É proposital? Como é a rotina de Ney Matogrosso?
Tenho mais o que fazer. Essas pessoas mais expostas à mídia têm assessor que avisa os papparazzi. Não me submeto a uma palhaçada dessas. Ando na rua como qualquer cidadão. Faço tudo o que quero. Vou às compras, ao teatro. Só falo com a mídia quando tenho algum trabalho para mostrar.

O pai de Cazuza rebateu uma afirmação sua publicada na Folha de SP de que havia mandado o filho para o estrangeiro para atrapalhar uma relação de vocês. Qual a intensidade da sua relação com Cazuza?
Ah, não gostaria de falar mais de Cazuza.

O local do show em que vai se apresentar atrai um público mais seleto, geralmente sentado em mesas. É esse o público mais adequado ao seu show?
Procuro qualquer público. Todos me interessam. Em 2007 levei o show do Inclassificáveis para um campo de futebol daí para milhares de pessoas. Pra mim é a mesma coisa.

Será necessário uma adaptação para um local menor?
Para esse agora não. Para o do estádio houve porque o palco era muito grande e cheio de rampas. Agora será o show puro, como ele deve ser.

Obrigado ao blogueiro Sérgio Vilar por mais essa!

Um comentário:

Lisandra disse...

"De tanto não poder dizer
Meus olhos deram de falar
Só falta você ouvir"
(trecho da música "Ouça-me", do disco Inclassificáveis)

O show foi lindo, um espetáculo. E só depois eu percebi que ele não conversou com o público durante a apresentação e isso não fez falta nenhuma (!) porque ele falava com os olhares, sorrisos e gestos. Ele não é só um cantor, é um verdadeiro intérprete, no sentido amplo mesmo.
O boulevard merece parabéns pelas atrações que vem trazendo, mas devia ao menos tentar minimizar o drama de quem vai ver os espetáculos e tem que ficar no calor, espremido e mal sentado numa cadeira de plástico, às vezes tendo que respirar fumaça de cigarro. Minha sugestão é que pelo menos parassem de servir filé com fritas e bebida depois que o show começasse. Ninguém merece garçom passando na frente o tempo todo e tomando a visão bem na hora do show.
E vou dizer uma coisa também...já que neguinho paga R$ 80,00 por pessoa pra sentar na mesa, devia se concentrar na apresentação; se é pra encher o bucho de filé, melhor ir pra uma churrascaria. Afinal, shows como esse são pra assistir, não pra servir de música de fundo de uma refeição.